Material de Apoio às Palestras
elaborados pelo Departamento de Orientação Doutrinária da USE - Ribeirão Preto:
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FAMÍLIA : EXPERIÊNCIA EVOLUTIVA
Palestra de Janeiro/07
Kátia de Macedo P.Cammilleri
NO SOCIAL
a) Família é a célula social onde se desenvolve o Homem ,
b) É a célula orgânica do corpo social e o sustentáculo de sua perpetuidade
c) Através dela, nos organizamos para a vida, criando comportamentos para a realização em grupo, pois tem função social e educativa por excelência
d) Forma-se em torno do LAR, que é a escola educativa e evolutiva, para vivermos em grupo familiar
e) Grupo Familiar é a estrutura capaz de nos sustentar nas lutas da vida: é a melhor oficina de evolução
“Homem nenhum possui faculdades completas.Mediante a união social é que elas umas às outras se completam, para lhe assegurarem o bem estar e o progresso.Por isso é que,precisando uns dos outros,os homens foram feitos para viver em sociedades e não insulados.” (1)
NA DOUTRINA ESPÍRITA
A – Importancia
“De todos os institutos sociais existentes na Terra, a família é o mais importante, do ponto de vista dos alicerces morais que regem a vida.” (2)
A providencia divina dá à FAMÍLIA, importância enorme como instituição social compatível com as suas leis e destinada a atender os seres humanos nas suas necessidades básicas ao seu desenvolvimento em todos os sentidos.
Assim, dia após dia, ano após ano e milênio após milênio, caminhamos em marcha evolutiva.E as noções morais que aprendemos com a Doutrina Espírita, estimulam os exemplos de amor e respeito mútuo.
“A família é uma instituição divina cuja finalidade precípua, consiste em estreitar os laços sociais, ensejando-nos o melhor modo de aprendermos a amar-nos como irmãos.” (3)
A FAMÍLIA na visão espírita, constitui-se na sociedade terrena, atendendo planos preestabelecidos na Espiritualidade, e para a formação da FAMÍLIA, o Espiritismo coloca o casamento como ato de progresso das sociedades humanas e de solidariedade fraterna, e que na maioria das vezes, são REAJUSTES ESPIRITUAIS.
“A natureza deu ao homem, a necessidade de amar e de ser amado.” (4)
“Não te esqueças que casar-se é tarefa para todos os dias,porquanto somente da comunhão espiritual gradativa e profunda é que surgirá a integração dos cônjuges na vida permutada, de coração para coração, na qual o casamento se lança sempre para o Mais Alto, em plenitude de amor eterno.” (5)
“O lar é como se fora um ângulo reto nas linhas da evolução divina.A reta vertical é o sentimento feminino, envolvido nas aspirações criadoras da vida.A reta horizontal é o sentimento masculino, em marcha de realizações no campo do progresso comum.O lar é o sagrado vértice onde o feminino e o masculino se encontram para o entendimento indispensável.” (6)
O LAR onde se congrega a FAMÍLIA,é o “(...) o templo onde as criaturas devem unir-se espiritualmente antes que corporalmente(...).” (7) . Não é casa de moradia, pois nem toda casa é um lar. LAR é feito de amor, compreensão, amizade e união, é a primeira escola de educação do sser humano.
B – Formação da FAMÍLIA
A FAMÍLIA e o LAR, formam-se pela REENCARNAÇÃO que tem por objetivo “expiação, melhoramento progressivo da humanidade(...)” (8)
Reencarnamos onde, com quem e como necessitamos. Os Espíritos unem-se pelos laços de simpatia e de afinidade, tanto no mundo espiritual como no material, e as famílias formam-se pelos laços corporais ou consanguíneos, que quase sempre se extinguem com o tempo, e pelos laços espirituais que via de regra são mais duráveis no mundo dos espíritos, assim, a FAMÍLIA espiritual é infinitamente maior que a FAMÍLIA consanguínea.
“O laço de simpatia que une os Espíritos da mesma ordem é para eles um motivo de felicidade? (...) Os Espíritos respondem: (...) a união dos Espíritos que simpatizam pelo bem é para eles uma das maiores alegrias, porque não temem ver essa união perturbada pelo egoísmo.Eles formam,no mundo inteiramente espiritual, as famílias do mesmo sentimento. É nisso que consiste a felicidade espiritual, como em teu mundo os homens se agrupam em categorias e gozam de um certo prazer quando se reúnem.A afeição pura e sincera que experimentam e de que são objeto é um motivo de felicidade,pois lá não há falsos amigos nem hipócritas(...) (9)
No sentido da FAMÍLIA espiritual, esta é representada “(...) por todo aquele que faz a vontade de Deus(..) (10)
Já FAMÍLIA consanguínea, “(...) de todas as associações existentes na Terra – excetuando naturalmente a Humanidade – nenhuma talvez mais importante em sua função educadora e regenerativa: a constituição de família, de semelhante agremiação,na qual dos seres que se conjugam atendendo aos vínculos do afeto,surge o lar, garantindo os alicerces da civilização. Através do casal, aí estabelecido, funciona o princípio da reencarnação consoantes as leis divinas, possibilitando o trabalho executivo dos mais elevados programas de ação do mundo espiritual(...) A parentela no planeta faz-se filtro da família espiritual sediada além da existência física, mantendo os laços preexistentes entre aqueles que lhe comungam o clima(...)Temos dessa forma, no instituto doméstico, uma organização de origem divina, em cujo seio encontramos instrumentos necessários aos nosso próprio aprimoramento para a edificação de um mundo melhor(...) (11)
Tanto Emmanuel quanto André Luiz, dizem que as famílias terrenas são planejadas no mundo espiritual. E Santo Agostinho no ítem 9 do Evangelho, Cap.XIV, diz que formam famílias os Espíritos que a similitude dos gostos, a identidade do progresso moral e a afeição, levam a se reunir.
Os verdadeiros laços de família, são os da afinidade onde os Espíritos se prendem antes, durante e depois da reencarnação. Mas ao reunirmo-nos em família, nem sempre estão conosco os companheiros estimados de outros tempos, mas também Espíritos menos estimados, para que restauremos a virtude da fraternidade, pois muitas vezes na condição de pais ou de esposos ou de filhos ou de irmãos ou de parentes, não passamos de devedores em resgate de antigos compromissos.
A Doutrina Espírita nos explica que, de certa forma é comum esse reencontro no lar, de Espíritos afins e não afins. O que vem para formar a família, é alguém com quem já experimentamos no passado, experiências de naturezas diversas, e agora se ligam a nós e ao nosso lar, através de laços de amor ou de algemas de aversão.
“Impelidos pelas causas do passado a reunir-nos no presente, é indispensável pagar com alegria, os débitos que nos irmanaram a alguns corações, a fim de que venhamos a solver as nossas dívidas para com a Humanidade.” (12)
É difícil muitas vezes a convivência com os integrantes da família, porque o Espírito pode não estar conseguindo realizar o seu papel de ajudar, equilibrar, educar e amar, como também pode não estar sendo amparado nas suas necessidades. Por isto se faz necessário que regras de conduta sejam atingidas: exercício da tolerância, da benevolência, da Paciência, do amor e da fraternidade.
A FAMÍLIA terrestre é o encontro de afetos e desafetos para reajustes necessários, e o LAR terrestre é o lugar excepcional para os reajustes e grande laboratório para se praticar o perdão, pois é um estágio para os espíritos.
C. Agrupamentos familiares
No agrupamento familiar como em qualquer outro, a existência de cada uma das pessoas, corresponde a um foco energético emissor de vibrações que atingem e envolvem os demais.
1. O homem e a mulher
Estes em primeiro lugar, que possuem os mesmos direitos, sob qualquer ponto de vista, e assim, se tudo é lícito a ambos, cabe ao bom senso determinar o que é mais importante e conveniente para cada um, para a perfeita harmonia no lar e no corpo social.
“O sublime amor do altar doméstico anda muito longe, quando os cônjuges perdem o gosto da conversa entre si.” (13)
2. Como pais
“E vós pais, não provoqueis a ira de vossos filhos, mas criai-os na doutrina e admoestação do Senhor”. (14)
Assim, os compromissos de paternidade e maternidade, é engrandecimento do espírito quando o casal compreende o caráter divino dos mesmos, e devem se lembrar que o exemplo tem a força maior do que as palavras.
“Os pais do mundo, admitidos às assembléias de Jesus, precisam compreender a complexidade e grandeza do trabalho que lhes assiste(...).Receber encargos desse teor é alcançar nobres títulos de confiança (...) (15)
3. Como filhos
Estes estão marcados por divinos deveres na senda humana. Honrar pai e mãe, não é só respeitá-los, mas cuidar deles, amá-los e entendê-los.
“Vós, filhos, sede obedientes a vossos pais,no Senhor,porque isto é justo”. (16)
É praticar a lei da caridade e do amor ao próximo, já que se não amarem os pais, não conseguirão amar os próximos.
O Livro dos Espíritos na questão 285, informa que os Espíritos se conhecem de geração a geração.O que o filho espera e precisa da mãe é o afeto e do pai, a autoridade.
Os filhos são o centro da atenção do casal,pois são Espíritos que se submetem a uma total dependência dos pais no período da concepção, gestação, nascimento e crescimento. O bom encaminhamento dos filhos, depende do esforço contínuo dos pais a moldar-lhes a alma.
Se forem rejeitados por aqueles que lhe proporcionam o reencarne, essa falta de amor será causa maior de muitos desajustes pessoais, que trarão consequencias graves familiares e sociais. Precisamos (re)encontrar o prazer de aprender e dar condições para nossos filhos também (re)encontrarem isto.
D. FAMÍLIA E ESPIRITISMO
Allan Kardec observa: “ Mas, na união dos sexos, a par da lei divina material,comum a todos os seres vivos, há outra lei divina, imutável como todas as leis de Deus, exclusivamente moral: a lei do amor. Quis Deus que os seres se unissem não só pelos laços da carne, mas também pelos da alma, a fim de que a afeição mútua dos esposos se lhes transmitisse aos filhos e que fossem dois, e não um somente, a amá-los, a cuidar deles e fazê-los progredir.” (17)
Há no Homem uma coisa a mais além das necessidades físicas: há a necessidade de progredir. Os laços sociais são necessários ao progresso e os de família mais apertados tornam os primeiros.
É bastante clara a citação doutrinária acima, para deixar clara a importancia que a Providencia Divina atribui à família, como uma instituição social compatível com as suas leis, e que o trabalho do fortalecimento familiar se faz com exemplos de amor recíproco e respeito mútuo.
Destacar a função educadora e regeneradora da família, é atender a planos preestabelecidos na Espiritualidade. Por isso dentre outras necessidades em que a família deve se basear para sua integralização fraterna, a direção segura de uma fé é muito importante. No nosso caso, o Evangelho no Lar “ é a festiva oportunidade de conviver algumas horas com os Espíritos de Luz que virão ajudar-te nas provações purificadoras, em nome daquele que é o Benfeitor vigilante e Amigo de todos nós”. (19)
Os momentos de culto são dedicados exclusivamente ao reduto doméstico, é o momento em que a Espiritualidade amiga se destaca para acompanhar os espíritos encarnados que estão em luta juntos, para que possam recolher os melhores benefícios daqueles minutos.
Joanna de Angelis, diz que o Evangelho no Lar beneficia uma rua inteira quando é feito no lar. (20)
D.1 – Os familiares portadores de necessidades especiais
Sabemos que Deus é a inteligência criadora do Universo e que age através de leis sábias e justas, portanto estamos sempre sob o mecanismo da Lei Maior. E sendo Deus justo e misericordioso, os encarnados familiares portadores de necessidades especiais, não estão conosco para nosso aborrecimento, mas sim porque há razão justa para que isso aconteça. Uma criatura que usou mal seu livre arbítrio, e causou dores físicas ou morais a outra, precisa passar pelo mecanismo educativo da reencarnação, e a espiritualidade encarregada desse processo, encaminha aquele que vai renascer onde haja atração. E aí resta a escolha da que vai ser mãe, pois encontros da futura mãe com o reeencarnante especial ocorrem, e daí deve vir a prova de amor incondicional.
D.2 – Os idosos na família
Na chamada primeira infância, fluem abundantes , a SINTONIA e a RESPONSABILIDADE , onde na primeira existe o cumprimento de todas as tarefas rotineiras que o lar e a família requerem, enquanto que na Segunda, a mãe é guardiã.
Quando invertemos os tempos, o idoso também volta a ser criança, portanto é a época em que necessita geralmente de alguém que zele por ele, e aí muito constantemente surgem o ESQUECIMENTO e o DESPREZO. Aqui ocorrem os rompimentos com a sintonia surgindo o auto-isolamento. Portanto, sendo o progresso uma lei divina, todos os acontecimentos de nossa vida são importantes para o trabalho e a evolução moral. Assim, a velhice não é o fim do homem, pois ligado àquele corpo arqueado, há um Espírito eterno: a educação do Espírito não deve parar!
D.3 – A maternidade e a paternidade
Deus na sua infinita sabedoria, fez a mulher o receptáculo do novo espírito a encarnar, através da maternidade.
Assim, a mulher pela maternidade é a plenitude de amor que faz o Progresso, pois a concepção, gravidez, parto e devoção afetiva, são etapas difíceis e ao mesmo tempo belas, de um trabalho divino.
“ Mães da Terra! Mães anônimas!(...) Mantende-vos, assim, vigilantes e abnegadas, na certeza de que se muitas vezes cipoais e espinheiros são vossa herança transitória entre os Homens, todas vós sereis amparadas e sustentadas pela Benção do Amor Eterno, sempre que marchardes fiéis à Excelsa Paternidade da Providencia Divina.” (23)
O Homem é o autor da vida do filho, e representa a autoridade que vai orientar seus filhos, nos seus julgamentos e saber disciplinar sua própria vontade. Só que a verdadeira autoridade não se impõe pela violência, pois ela decorre naturalmente das qualidades paternas: presença no lar, ser educador, conciliador, firme e justo, maduro entre outras qualidades.
“Que o homem se ocupe do exterior(...)” (24)
E – A CONFIANÇA NA PROVIDENCIA DIVINA
“Mas se alguém não tem cuidado dos seus e principal dos de sua família, negou a fé e é pior do que o infiel”. (Paulo, I, Timóteo,5:8)
Leon Denis diz: “Na planta, a inteligência dormita; no animal, sonha; só no homem acorda, conhece-se, possui-se e torna-se consciente; a partir daí, o progresso, de alguma sorte fatal nas forma inferiores da Natureza, só se pode realizar pelo acordo da vontade humana com as Leis Eternas” (21)
Os pais que estudam para fazer o melhor, propiciam no lar, um ambiente de espiritualidade fraterna, sentindo-se todos filhos de Deus. No lar onde exista uma só pessoa que creia firmemente na doutrina de Jesus e pratique sua lição, aí permanecerá a claridade necessária para equilibrar esse lar.
Emmanuel : “Não te esqueças pois de que se verdadeiramente aceitar o Cristo e a Ele te afeiçoas, serás conduzido para Deus, tu e tua casa”. (22)
A separação física do casal, adia o resgate ensejando décadas séculos de novas tentativas de reajuste, pois o compromisso familiar só estará quitado, quando amarmos o outro e não apenas suportarmos a sua presença; quando cabe auxiliar o outro através da cooperação do carinho, pois é necessário “esforço possível para alcançarmos, como diz Emmanuel, a tolerância e bondade na praia estreita do lar, para que aprendamos a servir com vitória no mar alto das grandes experiências” !
FINALIZAÇÃO
Se o núcleo familiar formado pelo conjunto homem, mulher e filhos, estiver manifestado em um relacionamento realmente afetivo, com o amor cultivado e manifestado, a FAMÍLIA estará bem constituída e consolidada, mas se houver qualquer quebra ou enfraquecimento nos vínculos de amos desse conjunto, o maior prejuízo será sempre em relação aos filhos.
É necessário pois, cultivar virtudes divinas como AMAR e PERDOAR, como aprendizado em família, capazes de nos auxiliar na caminhada evolutiva.
“FEITO DE OURO E SUCATA
O LAR DE ANGÚSTIAS E ESPERAS,
É O CAMPO ONDE SE RESGATA
AS DÍVIDAS DE OUTRAS ERAS.”
Álvaro Martins
BIBLIOGRAFIA
1. O Livro dos Espíritos, q.768, Allan Kardec
2. Vida e Sexo, cap.17, Chico Xavier, Emmanuel
3. As Leis morais, Rodolfo Caligaris, pg 115, 6ª ed.
4. O Livro dos Espíritos, q.938, Allan Kardec
5. Na era dos Espíritos, cap.11, Chico Xavier, Emmanuel
6. Nosso Lar, cap.20, André Luiz
7. Nosso Lar,cap.20, André Luiz
8. O Livro dos Espíritos, q.167, Allan Kardec
9. O Livro dos Espíritos, q.980, Allan Kardec
10. O Livro dos Espíritos, Livro Segundo, Cap.1º, item VI, Allan Kardec
11. Vida e Sexo,cap.II, Chico Xavier, Emmanuel
12. Fonte Viva, Chico Xavier, Emmanuel
13. Nosso Lar, cap.20, André Luiz
14. Paulo, Efésios, 6:4
15. Vinha de Luz, cap.135, Chico Xavier, Emmanuel
16. Paulo, Efésios, 6:1
17. Evangelho Segundo o Espiritismo, cap.XXII, item 3, Allan Kardec
18. SOS Família, Divaldo Franco, cap.Estude o Evangelho, Joanna de Angelis
19. Idem
20. Messe de Amor, pg.Jesus Contigo, Joana de Angelis
21. O Problema do Ser, do Destino e da Dor, Leon Denis
22. Fonte Viva, Chico Xavier, Emmanuel
23. O Espírito da Verdade, cap.88, Chico Xavierr e Waldo Vieira, André Luiz
24. Livro dos Espíritos, q.822, Allan Kardec
“Breve História do Pensamento Religioso”
Márcia Pacciulio
marcia_pacciulio@yahoo.com.br
O sentimento de religiosidade é inerente ao Homem. É o sentimento natural que o faz reconhecer-se como filho de um Criador, d’Aquele que lhe dá a vida e à quem ele deve buscar numa atitude íntima de reconhecimento, gratidão e identidade para que encontre a verdadeira felicidade. O Pensamento Religioso expressa as diferentes maneiras com que o Homem, em diferentes épocas, identifica, interpreta e expressa a sua Religiosidade.
Historicamente, em todos os tempos e de um modo geral, vamos encontrar o ser humano expressando sua religiosidade através de práticas exteriores, tais como os rituais, os cânticos e danças, os símbolos e as palavras “mágicas”, bem como o sacerdócio organizado e a adoção de dogmas.
Até os dias de hoje, o Homem tem atrelado o desenvolvimento de seu sentimento de religiosidade às sensações físicas e às percepções mediúnicas que os fenômenos de intercâmbio entre vivos e mortos sempre lhes possibilitaram, por serem estes naturais e freqüentes e por ser aquele ainda pouco desenvolvido moral e intelectualmente.
Embora os fenômenos de comunicação entre os dois planos tenham sido o fermento responsável pelo desenvolvimento do pensamento religioso no Homem, antes do Espiritismo vamos encontrar, predominantemente, o que Emmanuel apropriadamente denominou de Mediunismo, ou seja, “práticas religiosas primitivas, sem desenvolvimento intelectual e cultural, caracterizadas por práticas mágicas”.
Por outro lado, em meio à histeria dominante nos momentos históricos de grande profusão fenomenológica, nunca faltaram o pensamento lógico e a abnegação amorosa de espíritos sábios, que sendo missionários do Alto, souberam fazer-se homens simples para deixar-nos a herança de doutrinas espiritualizantes e os exemplos heróicos de pacífica resistência à hipocrisia dos oportunistas ambiciosos e dominadores.
Com o advento da doutrina Espírita, o Mediunismo foi elevado à categoria de Mediunidade, ou seja, os fenômenos de intercâmbio entre encarnados e desencarnados foram submetidos à pesquisa racional e a descoberta da existência de leis naturais por detrás da realização desses fenômenos retirou-os do campo da Magia para torná-los parte da realidade da vida.
Encontrando respostas racionais para velhas perguntas, como: De onde venho? Para onde vou? Qual a finalidade da vida?; o pensamento religioso , que até então vinha recebendo uma forte influência mística, com a Doutrina Espírita tem a oportunidade de desenvolver-se mais apropriadamente, facultando ao Homem exercitar o sentimento de religiosidade, utilizando-se da fé raciocinada como instrumento e alavanca de seu progresso espiritual.
Um Pouco de História:
Descobertas arqueológicas de pinturas em cavernas na Espanha (Altamira) e na França (Lascaux), do período paleolítico, sugerem (além de cenas do cotidiano), cenas de cultos com oferendas de animais, bem como sinais simbólicos que mostram o homem primitivo em pleno intercâmbio com os mortos.
No período histórico chamado de Antiguidade, as primeiras civilizações deixaram para a posteridade “livros sagrados” que falam da reencarnação e da comunicação entre vivos e mortos, bem como apresentam roteiros de espiritualização para os iniciados que desejassem viver bem nesta existência e em outras.
Assim é que vamos encontrar na China Antiga, cerca de 6 séculos antes da era cristã, Confúcio (“Discussões e Conversas”) e Lao Tse (“A Senda da Verdade” e “Quatro Livros”) ensinando regras de indulgência e caridade, demonstrando que o progresso é uma lei da Natureza. Desenvolvem e explicam idéias onde as relações com o invisível constituem-se em acontecimentos comuns e naturais. Ao mesmo tempo em que protestavam contra um estado social contemporâneo decadente, tentavam reconduzir os homens aos valores eternos do Espírito, com sabedoria e racionalidade.
Na Índia, os Vedas (conjunto de escritos) compreendem, entre outros pensamentos, uma coletânea de normas sobre a organização da sociedade, sobre cerimônias e sacrifícios, além de hinos e ritos, onde o intercâmbio entre os homens e as almas é tratado e realizado de forma tranqüila, bem como a reencarnação e a imortalidade são tratadas de modo muito natural. Na doutrina védica a evolução progressiva da alma pelas reencarnações múltiplas também é tratada e apontada como meio para a destruição do desejo e do egoísmo.
Sidarta Gautama (o “Buda”= o Esclarecido), 3 séculos antes de Cristo, também ensinava regras de conduta que devem levar o Homem à iluminação, além de defender a idéia da reencarnação e a existência do Espírito (alma). Nada ensinou aos seus discípulos sobre Deus porque acreditava que eles não poderiam formar uma idéia justa sobre Ele.
No Egito Antigo uma das sociedades mais fechadas da época, os assuntos normais da vida conviviam naturalmente com a fenomenologia de intercâmbio com as almas. No “Livro Sagrado de Hermes” vamos encontrar uma ampla “enciclopédia” contendo o conhecimento humano de então, em meio a grandes ensinamentos espiritualizantes. Os sacerdotes egípcios comumente conheciam e utilizavam a clarividência, o sonambulismo, a obtenção de cura pela sugestão após o sono provocado (hipnotismo), além do Magnetismo. Chamavam a todo esse processo de Magia. Nos Templos, eram comuns o emprego de técnicas de regressão de memória, visando o desmembramento das existências passadas do neófito, para que este pudesse estabelecer um programa de desenvolvimento espiritual mais eficiente para a atual encarnação.
Na Grécia Antiga, as comunicações entre vivos e mortos, bem como a evocação de “deuses” para a resolução de problemas do cotidiano eram práticas corriqueiras. Nos Templos, quem desempenhava esse papel eram as pitonisas que proferiam oráculos e serviam de intermediárias entre o interlocutor e a alma que este desejava interrogar, que em muitos casos, era um ente querido já desencarnado. Nenhuma decisão era tomada sem essas consultas e as orientações recebidas eram sempre prontamente atendidas. Esse condicionamento, com o passar do tempo, gerou entre o povo mais simples e inculto, uma onda de “dependência mística” muito pouco produtiva do ponto de vista da melhor compreensão do fenômeno.
Havia 2 ensinos, um para a multidão e outro para os mais instruídos. Estes últimos eram iniciados nos “Mistérios”, ensinamentos de importância moral e civilizadora, visando preparar a alma para que, no momento da morte, estivesse isenta de paixões, inveja, ódio e cólera.
Para retirar o Homem do estado de irrefletida dependência do intercâmbio com os mortos e para estimulá-lo à reflexão e ao desenvolvimento da razão, surgem grandes filósofos nesse período, com suas doutrinas altamente espiritualizantes, preparando o advento do Cristianismo. Desses, podemos destacar Sócrates e Platão, que Allan Kardec aponta como sendo os principais precursores do Cristianismo e, consequentemente, do Espiritismo, pois, além de “pressentirem as idéias cristãs, encontram-se igualmente na sua doutrina os princípios fundamentais do Espiritismo”.
Na Judéia da Antigüidade vamos encontrar profetas que viveram em diferentes épocas, a começar por Moisés, todos eles dotados da capacidade de se comunicarem com os “anjos” enviados pelo Pai, com o intuito de transmitirem aos homens a idéia do Deus único e regras de conduta que agradassem a Ele. O intercâmbio abusivo com os mortos, por questões pueris e decisões simples, levou Moisés à sua proibição (Deuteronômio, 18: 9 a 13). Com o passar do tempo, essa proibição foi mantida pelos poderes teocrático e civil que, unidos, lutavam para mantê-la severamente observada, porque não convinha que o intercâmbio com os mortos viesse contradizer o ensinamento oficial, nem “perturbar” o raciocínio dos homens e “desestabilizar” a ordem social com o conhecimento da existência da vida espiritual perene e sua preponderância sobre a vida material temporária.
Depois de um longo período, em que os ensinamentos espirituais eram revelados no interior dos Templos de diferentes civilizações, mas restritos aos iniciados de diferentes épocas, surge Jesus, que inaugura uma nova era, em que as verdades universais relativas ao Espírito deixam de ser privilégio de um pequeno grupo e são levadas às multidões de crenças variadas e diferentes níveis culturais e econômicos. Jesus não era, simplesmente, mais um profeta que surgia no cenário da Palestina, pois ensinava com a autoridade de quem tudo sabe e tudo já assimilou em seus pensamentos, sentimentos e atitudes. Dotado de dupla-vista plenamente desenvolvida, “lia” os pensamentos, “analisava” as consciências e “julgava” os merecimentos representando a vontade de um Pai soberanamente justo e bom, junto aos seus irmãos menos evoluídos.
Em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, Allan Kardec esclarece-nos que a autoridade de Jesus “decorria da natureza excepcional do seu Espírito e da natureza divina de sua missão. Ele veio ensinar aos homens que a verdadeira vida não está na Terra, mas no Reino dos Céus; ensinar-lhes o caminho que os conduz até lá, os meios de se reconciliarem com Deus e os advertir sobre a marcha das coisas futuras, para o cumprimento dos destinos humanos. Não obstante, Ele não disse tudo, e sobre muitos pontos se limitou a lançar o germe de verdades que Ele mesmo declarou não poderem ser compreendidas... era preciso que novas idéias e novos conhecimentos viessem dar-nos a chave... A Ciência devia contribuir poderosamente para o aparecimento e o desenvolvimento dessas idéias. Era preciso, pois, dar tempo à Ciência para progredir”.
Os feitos e curas dos discípulos de Jesus, que foram os primeiros continuadores de seu trabalho de espiritualização da humanidade, estão descritos em Atos (Novo Testamento). Nos primeiros séculos do Cristianismo, uma profusão de manifestações mediúnicas de todo tipo voltam a ocorrer entre o povo simples para atestar a imortalidade, bem como a presença marcante e muitas vezes decisiva da espiritualidade na vida de qualquer um, independentemente do grau cultural, do nível social ou da raça, fortalecendo a fé e devolvendo a esperança àqueles que se encontravam em sofrimento. A volta triunfal de Jesus em Espírito, após a morte cruel e dolorosa na cruz, representou para os primeiros cristãos a eterna e gloriosa vitória da vida sobre a morte e a a esperança de um futuro melhor, no qual as dores momentaneamente suportadas com fé e resignação, não mais existiriam.
No século IV, após a fusão da Doutrina Cristã espiritualizante com o Paganismo Romano materialista e sensual, constituindo a Igreja institucionalizada e dogmática, os valores eternos do Espírito foram gradativamente sufocados pelo egoísmo e o orgulho predominantes, na busca pela realização de interesses exclusivistas e temporais, m detrimento da evolução do Pensamento Religioso.
Em meio às sementes de trigo semeadas pelo Mestre (as verdades espirituais) começava a crescer o joio (o materialismo) presente no solo impuro (espírito) da Humanidade. Originou-se um grande estacionar no processo evolutivo da Humanidade; um período obscuro de predominância do poder sobre a razão, que durou aproximadamente 1000 anos! (do século V ao século XV). Era a Idade Média.
Nessa época, os médiuns eram considerados hereges, eram perseguidos e suas práticas eram mal vistas e indesejadas. Aqueles que “ousavam” negligenciar as determinações da Igreja e estabelecer o “intercâmbio com os mortos” eram presos, julgados como feiticeiros, torturados e queimados vivos ou afogados. Mesmo assim, grandes missionários novamente desceram ao mundo nessa época e demonstraram com sua sabedoria e plena fidelidade à deus, que o progresso do Espírito é uma lei universal e representa a vontade d’Aquele que guia o destino da humanidade, apesar e além da vontade daqueles que sempre se auto-denominaram “representantes de Deus”.
Alguns desses missionários:
- Maomé (Oriente Médio – 570 D.C.): elaborou o Alcorão baseando-se nas orientações espirituais que recebeu – surgimento do Islamismo.
- Santo Agostinho (doutor da igreja): ouvia uma voz misteriosa que o induzia a estudar, refletir e mudar de vida.
- Tomás de Aquino: ensinava que o Espírito pode aparecer aos vivos.
- Francisco de Assis: episódios de levitação, curas e comunicações com os Espíritos.
- John Huss: via Espíritos, pregava a pluralidade das existências e a popularização de verdades universais restritas ao clero.
- Joanna D’Arc: ouvia vozes que a conduziram para vencer a guerra e mudar o destino da França.
- Antônio de Pádua: bicorporeidade e audição de vozes em meio ao ambiente religioso da época.
Terminada a Idade Média, a profusão de descobertas científicas e as grandes transformações no campo da política, das artes e da economia despertaram no Homem a necessidade do exercício da razão para a melhor compreensão da realidade que o convidava novamente ao progresso e à melhoria nas condições de vida e nas relações sociais. Nesse contexto, mais uma vez, observa-se o crescimento no número de fenômenos de intercâmbio com a Espiritualidade, até então esporádicos e restritos à cúpula clerical ou à alguns missionários entre o povo. No entanto, esses acontecimentos, embora fossem diversificados e muitos deles fossem até registrados em livros que visavam despertar a atenção do mundo para a continuidade da vida espiritual e da possibilidade de intercâmbio com essa outra realidade, permaneciam ainda esses fenômenos incompreendidos e relegados ao campo da Mística.
Os fenômenos espirituais proliferaram, então, por toda parte, à margem do desenvolvimento científico e distanciados de uma análise racional quanto às suas origens, finalidades e causas. Em meados do século XIX, já haviam se tornado um divertimento fútil nos salões de toda a Europa e novamente vamos encontrar os homens se divertindo com as respostas e adivinhações proporcionadas pelo intercâmbio com os Espíritos.
É nesse clima que os fenômenos são apresentados ao professor Hippolyte Léon Denizard Rivail (Allan Kardec) que, depois de observá-los atentamente, resolve estuda-los. O professor Rivail era um grande pedagogo, um cientista nato, um humanista declarado. Essa mente aberta, atualizada, caracterizava-se pelo pensamento frio, analítico, sem arroubos de entusiasmos. Era sintético e sem preconceito, estando por seus conhecimentos, muito à frente da mentalidade de sua época. Consciente e responsável, assumia as questões e decisões tomadas e empenhava-se plenamente em tudo quanto fazia.
Sobre essa época, escreve Allan Kardec:
“Eu entrevia naquelas aparentes futilidades, no passatempo que faziam daqueles fenômenos, qualquer coisa de sério, como que a revelação de uma nova lei que tomei a mim estudar a fundo... Apliquei à essa nova ciência o método experimental; nunca elaborei teorias pré-concebidas; observava cuidadosamente, comparava, deduzia conseqüências; dos fatos procurava remontar às causas, por dedução e pelo encadeamento lógico dos fatos, não admitindo por válida uma explicação, senão quando resolvia todas as dificuldades em questão”.
Em 18 de abril de 1857 é lançada em Paris a primeira edição de “O Livro dos Espíritos” e, com ele, é trazida ao público uma nova Doutrina Espírita, assim definida pelo Codificador:
“Espiritismo – Ciência, Filosofia e Religião que trata da natureza, origem e destino dos espíritos, bem como de suas relações com a matéria”.
Os 5 pontos fundamentais da Doutrina Espírita, apresentados em O Livro dos Espíritos com argumentação clara e racional são os seguintes:
- Existência de Deus.
- Pré-existência e sobrevivência do Espírito.
- Comunicabilidade dos Espíritos.
- Pluralidade das existências (reencarnações).
- Pluralidade dos mundos habitados.
Esclarece-nos o professor Herculano Pires: “O Espiritismo é a Ciência do Espírito e de suas relações com os homens; dessa ciência resulta uma Filosofia e dessa Filosofia as conseqüências religiosas do Espiritismo, que constituem a Religião Espírita”.
Tal como aconteceu com o Decálogo deixado por Moisés e o Evangelho de Jesus, o espiritismo também constitui-se em uma Religião revelada, mas desta vez através de uma conjugação humano-divina.
Kardec formulou a tese da dupla revelação:
1-A que é dada pelos Espíritos Superiores encarnados ou por via mediúnica, em todos os tempos;
2-A que é feita pelos cientistas que investigam a Natureza, descobrem os seus segredos e os revelam no plano científico.
É dessa dupla revelação que se constitui a religião Espírita, que não se acomoda na fé cega, mas exige a fé raciocinada pelos fatos e pela razão esclarecida.
Também nos esclarece Kardec que o conhecimento das leis da matéria precisava preceder o conhecimento das leis da espiritualidade, porque é a matéria que atinge primeiro os sentidos. Se o Espiritismo tivesse vindo antes das descobertas científicas, do desenvolvimento do potencial mental do Homem, teria sido uma obra abortada, como tudo o que vem antes do seu tempo!
Como vimos, o sentimento de Religiosidade, embora natural no ser humano, vinha sendo bloqueado ou subdesenvolvido pelo obscurantismo dogmático, pelas práticas exteriores e pelo materialismo exorbitante, desde longa data. Mas, com o advento do Espiritismo, uma nova Era já desponta no horizonte, em que o Pensamento Religioso, intérprete e condutor da Religiosidade natural e pura que habita no ser humano, poderá desenvolver-se adequadamente sob a égide da fé raciocinada, encontrando o Homem, finalmente, as respostas aos seus questionamentos mais íntimos referentes à sua procedência, o seu destino e a sua missão.
Referências Bibliográficas:
- A Gênese – Allan Kardec.
- O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec.
- O Livro dos Espíritos – Allan Kardec.
- Allan Kardec em Verdade e Luz – Leda M. Bighetti.
- Kardec, Jesus e a Filosofia Espírita – Nazareno Tourinho.
- O Consolador – Chico Xavier/ Emmanuel.
- A Caminho da Luz – Chico Xavier/ Emmanuel.
- O Centro Espírita - J. Herculano Pires.
ALLAN KARDEC – O EDUCADOR
Gustavo Leopoldo Daré
leopoldodare@ig.com.br
Perguntas me inquietam ao tentar compreender o Espiritismo. O que levou o educador Allan Kardec a desenvolver pesquisas psíquicas e lançar as bases do Espiritismo? Por que a sua obra diferencia-se de todas as outras obras espíritas?
Hippolyte Leon Denizard Rivail nasceu em Lion, França, em 1804. Dos 10 aos 15 anos estudou em Yverdon, Suíça, no célebre instituto do professor-filantropo Johann H. Pestalozzi. Frases de Pestalozzi sugerem que o ambiente em que Rivail consolidou sua personalidade, valorizava o sentimento e a educação integral através da prática, da observação e da convivência. “O principal do que digo, eu vi. E muito do que aconselho, eu fiz... Tudo o que digo repousa... em minhas experiências reais”, “A manifestação do amor é a salvação do mundo!... é o fio que liga o globo terrestre... que liga Deus e o homem”. “A educação (provém)... do reconhecimento das imutáveis leis da nossa natureza... o objetivo final da educação não é o de aperfeiçoar as noções escolares, mas sim o de preparar para a vida; não de dar o hábito da obediência cega... mas de preparar para o agir autônomo”.
Convicto do poder da educação e com forte senso de obrigação social, Rivail realizou intensa e precoce atividade literária e pedagógica. Chegou a Paris em 1820, se pôs a lecionar e a traduzir obras inglesas e alemãs. Lançou seu primeiro livro em 1823, com 18 anos. Até 1850 publicou 22 obras de ensino pré-universitário sobre pedagogia, mitologia, física, química, astronomia, fisiologia, aritmética, cálculo e gramática. Em 1825, com 20 anos, começou a dirigir uma “Escola de Primeiro Grau”. Em 1826 fundou o instituto técnico “Instituição Rivail”. Com 24 anos, escreveu em seu Plano para a Melhoria da Educação Pública: “A educação exige um estudo especial... conhecimento profundo do coração humano e da psicologia moral... a educação não se limita apenas à instrução... todas as partes... são... estreitamente ligadas...” “A grande diferença entre um professor (se limita a ensinar) e um educador (encarregado do desenvolvimento inteiro do homem)”. “Educação é o resultado do conjunto de hábitos adquiridos... resultado de todas as impressões que os provocavam”. “A inteligência deve ser desenvolvida desde cedo, como a moral, e não é sobrecarregando a memória... mas enriquecendo a imaginação de idéias justas...” Complementa em 1834: “Tudo é intelectual, tudo é moral”. “Conheça o movimento dos astros e seu espírito penetre no espaço; tudo isso está ao alcance... da adolescência. Então, não será, como um bruto, indiferente a tudo o que maravilha seu olhar; então não mais acreditará em almas do outro mundo, nem em fantasmas; não mais tomará fogos-fátuos por espíritos; não mais acreditará nos ledores de sorte... seu espírito se alargará contemplando o espaço imenso e sem limites”. Em 1857 volta a lançar livros, agora sobre Espiritismo, com o pseudônimo de Allan Kardec. Até seu desencarne, em 1869, publicou, pelo menos, 8 obras espíritas. Dos aproximadamente 188 textos que Kardec insere entre as perguntas dO Livro dos Espíritos, 39 estão diretamente relacionadas à educação. Qual força foi capaz de transformar o jovem Rivail, cético do mundo espiritual, no grande codificador do Espiritismo aos 53 anos?
Com intensa atividade intelectual e confiança na ciência para alcançar a verdade, em 1823, com 19 anos, iniciou seus estudos sobre o magnetismo. Ao longo de sua vida associou-se a 12 Academias científicas. Até meados do século XIX a ciência não era uma atividade profissional, e criavam-se academias para debater e aprimorar estes conhecimentos.
Rivail nos define a educação como um ato moral de argumentação racional. Sua confiança no método científico o fez mudar de paradigma, aceitou a existência dos Espíritos desencarnados, porém manteve-se fiel ao seu sonho, definido aos 30 anos com paixão e racionalidade: “a educação é a obra da minha vida, não faltarei à minha missão... inimigo de todo charlatanismo, não tenho o tolo orgulho de acreditar cumpri-la com perfeição, mas tenho ao menos a convicção de cumpri-la com consciência”. Seu entusiasmo com o Espiritismo provém não da descoberta científica da comunicabilidade da alma, mas da percepção de que este conhecimento transformaria os conceitos humanos, desenvolvendo a moral. Sua obra não se limita na ciência, religião ou filosofia, transcende-as ao tornar-se uma obra educadora, busca convencer racionalmente, baseada em fatos vividos cientificamente, com linguagem simples para ser acessível a todos. Outros filósofos e cientistas espíritas não tiveram a envergadura educadora e o engajamento social de Kardec.
Pergunto-me se poderemos completar a utopia de Kardec e transformar o Espiritismo em uma eficiente ferramenta social de educação moral em nosso tempo. Parece-me que precisamos ser mais apaixonados pela educação, mais comprometidos em agir moralmente e em estimular a autonomia, a racionalidade e a atitude científica do Homem.
Bibliografia: O Livro dos Espíritos (Allan Kardec), Pestalozzi: educação e ética (Dora Incontri), Textos Pedagógicos: Hippolyte Léon Denizard Rivail (Dora Incontri), Allan Kardec: o educador e o codificador (Zêus Wantuil e Francisco Thiesen).
O ESPIRITSMO E AS TRANSFORMAÇÕES RELIGIOSAS
Maio/2007
dusantucci@terra.com.br
Parte II - A Face Religiosa do Espiritismo – Caráter e Dinâmica
L.E. 798 O Espiritismo será para todos ou permanecerá como privilégio de algumas pessoas?
– Certamente, ele se tornará uma convicção íntima de todos e marcará uma nova era na história da humanidade, porque está na ordem natural das coisas, na natureza, e é chegado o tempo de ocupar o seu lugar entre os conhecimentos humanos. Entretanto, haverá grandes lutas a sustentar, mais contra os interesses do que contra a convicção, porque não podemos desconhecer que há pessoas interessadas em combatê-lo, uns por amor-próprio, outros por interesses materiais.
L.E. 799 De que maneira o Espiritismo pode contribuir para o progresso?
– Destruindo o materialismo, que é uma das chagas da sociedade, e fazendo os homens compreenderem onde está seu verdadeiro interesse. A vida futura, não estando mais encoberta pela dúvida, fará o homem compreender melhor que pode, desde agora, no presente, preparar seu futuro. Ao destruir os preconceitos de seitas, de castas e de raças, ensina aos homens a grande solidariedade que deve uni-los como irmãos.
“A crença na imortalidade, disse Platão, é o laço de toda a sociedade; despedaçai esse laço e a sociedade se dissolverá.”
A religião ganha, em vez de perder, autoridade com a classificação na ordem natural dos fatos reputados miraculosos e isto porque, se um deles é falsamente considerado milagre, nasce dali um erro e a religião, obstinando-se em mantê-lo, só tem que perder. Além disso, ainda é prejudicado porque muitas pessoas não admitem a possibilidade dos milagres; donde resulta negarem os fatos tidos como tais e a religião, que os sustenta. Pelo contrário, admitidos os fatos como efeitos de leis naturais, nenhuma razão há para se lhes recusar fé, tanto como à religião que os proclama.
Os fatos constatados pela ciência, de maneira peremptória, não podem ser negados por nenhuma crença religiosa contrária. A religião não pode senão ganhar em autoridade, seguindo o progresso dos conhecimentos científicos, e perder em permanecer atrasada ou em protestar contra esses mesmos conhecimentos em nome dos dogmas, porque nenhum dogma poderia prevalecer contra as leis da Natureza, nem anulá-las; um dogma fundado sobre a negação de uma lei da Natureza não pode ser a expressão da verdade.
O Espiritismo, fundado sobre o conhecimento de leis incompreendidas, não vem destruir os fatos religiosos, mas sancioná-los, dando-lhes uma explicação racional; ele não vem destruir senão as falsas conseqüências que deles foram deduzidas, em conseqüência da ignorância dessas leis, ou de sua interpretação errônea.
A vida futura não é mais um problema; é um fato adquirido pela razão e pela demonstração para a quase unanimidade dos homens, porque os seus negadores não formam senão uma ínfima minoria, apesar do ruído que se esforçam por fazer. Não é, pois, a sua realidade que nos propusemos demonstrar aqui; isso seria repetir sem nada acrescentar à convicção geral. Estando o princípio admitido, como premissa, o que nos propusemos foi examinar a sua influência sobre a ordem social e a moralização, segundo a maneira pela qual é encarado.
As conseqüências sobre o princípio contrário, quer dizer, o niilismo, são igualmente muito bem conhecidas e muito bem compreendidas para que seja necessário desenvolvê-las pela segunda vez. Diremos simplesmente que, se fora demonstrado que a vida futura não existe, a vida presente não teria outro objetivo senão a manutenção de um corpo que, amanhã, em uma hora, poderia deixar de existir e tudo, neste caso, estaria acabado sem retorno. A conseqüência lógica de uma tal condição da Humanidade, seria a concentração de todos os pensamentos sobre o crescimento dos gozos materiais, sem cuidado com o prejuízo de outrem, por que então se privar, se impor sacrifícios? Que necessidade de se constranger para se melhorar, se corrigir de suas faltas? Seria, ainda, a perfeita inutilidade do remorso, do arrependimento, uma vez que não se teria nada a esperar; seria, enfim, a consagração do egoísmo e da máxima: O mundo é dos mais fortes e dos mais espertos. Sem a vida futura, a moral não é senão um embaraço, um código de convenção imposto arbitrariamente, mas não tem nenhuma raiz no coração. Uma sociedade fundada sobre tal crença não teria outro laço senão a força, e cairia logo em dissolução.
Toda religião repousa, necessariamente, sobre a vida futura, e todos os dogmas convergem, forçosamente, para esse objetivo único; tendo em vista alcançar esse objetivo que eles são praticados, e a fé nesses dogmas está na razão da eficácia que se lhes supõe para ali chegar. A teoria da vida futura é, pois, a pedra angular de toda doutrina religiosa; se essa teoria peca pela base, se abre o campo para objeções sérias, se ela mesma se contradiz, se se pode demonstrar a impossibilidade de certas partes, tudo desmorona: a dúvida vem primeiro, à dúvida sucede a negação absoluta, e os dogmas são arrastados no naufrágio da fé.
“Direi apenas que a moral espírita nos ensina a suportar a desgraça sem a desprezar, a gozar a felicidade sem a ela nos apegarmos; ela nos rebaixa sem nos humilhar, como nos eleva sem nos orgulhar; coloca-nos acima dos interesses materiais, sem por isto os marcar com o aviltamento, porque nos ensina, ao contrário, que todas as vantagens com que somos favorecidos são outras tantas forças que nos são confiadas e por cujo emprego somos responsáveis para conosco e para com os outros”.
“A. Briquel” Revista Espírita Janeiro 1866
Como julgamos haver estabelecido, o espiritismo assenta em testemunhos universais; apóia-se em fatos de experiência, observados em todos os pontos do globo por homens de todas as condições, entre os quais se contam sábios pertencentes a todas as grandes Universidades e a muitas Academias célebres. E graças a eles, aos seus esforços, que a Ciência contemporânea, a despeito das suas repugnâncias e hesitações, tem sido levada pouco a pouco a interessar-se pelo estudo do mundo invisível.
As investigações têm sucedido às investigações, e sempre os resultados têm vindo corroborar as afirmações anteriores. Dessas observações, multiplicadas ao infinito, resultou uma certeza: a da sobrevivência do ser humano e, com ela, noções mais positivas das condições da vida futura.
O espiritismo fez mais. Com esse conjunto de estudos e comprovações, com essa pesquisa empreendida há um século e meio, com todas as revelações que deles resultam, constitui um novo ensino liberto de toda forma simbólica ou obscura, facilmente acessível, mesmo aos mais humildes, e que aos pensadores e eruditos descerra vastíssimas perspectivas dos elevados domínios do conhecimento, na concepção de um ideal superior.
Dirige-se principalmente aos que sofrem, aos que vergam ao peso de rude labor ou de dolorosas provações; a todos os que tem necessidade de uma fé viril que os ampare em sua lides, em seus trabalhos e aflições. Ele dirige-se à grande massa humana, a essa multidão que se tornou incrédula, desconfiada, a respeito de todo dogma, de toda crença religiosa, porque reconhece que foi iludida durante séculos.
Não há graças particulares, nem privilégios, nem redenção pelo sangue de um justo, nem deserdados, nem favoritos. Todos os Espíritos que povoam a imensidade, disseminados pelo espaço ou nos mundos materiais, são filhos de suas próprias obras; todas as almas que animam corpos de carne, ou que aguardam novas encarnações, são da mesma origem e tem igual destino. Só os merecimentos, as virtudes adquiridas as distinguem; todas, porém, podem elevar-se por seus esforços e percorrer a senda dos aperfeiçoamentos infinitos.
A superioridade moral da doutrina dos Espíritos se afirma em todos os pontos. Com ela se dissipa a idéia iníqua do pecado de um só homem, recaindo sobre todos. Graças a ela, o homem compreende, finalmente, o objetivo da existência; nela vê um meio de educação e reparação; cessa de maldizer o destino e acusar.
Acreditou-se por muito tempo ter feito bastante, difundindo a instrução; mas a instrução sem o ensino moral é impotente e estéril.
O estudo do Espiritismo ensina que a vida é combate pela luz; a luta e as provas só hão de cessar com a conquista do bem moral.
A doutrina Espírita se compõe dos apóstolos, dos discípulos do Cristo e de todos os gênios dos tempos cristãos. Perto deles encontrareis também os elevados Espíritos de todas as raças que viveram neste mundo em conformidade com a lei de amor e caridade.
“Cabe ao Espiritismo reformar a legislação, por via de regra contrária às leis divinas, cabe-lhe retificar os erros da história e apurar a religião do Cristo, transformada, nas mãos dos padres, em comércio e em vil tráfico. Instituirá a verdadeira religião, a religião natural, a que parte do coração e vai, diretamente, a Deus...”
Um Espírito – Obras Póstumas
Referências Bibliográficas:
Evangelho Segundo Espiritismo:
•Cap I e V
•Introdução Herculano Pires edição especial 100 anos do Espiritismo (O problema religioso)
Obras Póstumas
•Manifestações dos Espíritos: Caráter e Conseqüências Religiosas das manifestações Espíritas- pág 40.
•A vida futura – pág 174
•Futuro do Espiritismo – pág 244
•Credo Espírita – Preâmbulo - pág 307
Livro dos Espíritos
•Influencia do Espiritismo no progresso Q. 789 a 802.
Revista Espírita
•Abril 1862 Conseqüências da Doutrina da Reencarnação na Propagação do Espiritismo.
•Maio 1862 Causas da Incredulidade
•Janeiro de 1863 Resposta a uma pergunta sobre o Espiritismo, do Ponto de Vista Religioso.
•Dezembro 1863 Utilidade do Ensino dos Espíritos.
•Fevereiro de 1866 O Espiritismo segundo os Espíritas
•Fevereiro 1865 Da perpetuidade do Espiritismo
Cristianismo e Espiritismo (Leon Denis)
•XI Renovação
•Conclusão
Viagem Espírita em 1862
•Discurso III Pronunciado nas Reuniões Gerais dos Espíritas de Lyon e Bordeaux pág. 64
Que Transformações Religiosas o Espiritismo realiza?
ESCLARECIMENTOS: Este material é constituído por pequenos trechos selecionados de obras de Allan Kardec, principalmente da Revista Espírita, e de uma apresentação da Profa. Maria Laura Viveiros C. Cavalcanti no Seminário “Vida e Morte nas tradições religiosas”, ocorrido em Niterói, em 06 de novembro de 2004.
A Profa. Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti é professora do Departamento de Antropologia Cultural e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem pesquisado o Movimento Espírita Brasileiro há mais que vinte anos, dentro de uma abordagem antropológica, histórica e sociológica.
Esta coleção de textos tem o intuito de colaborar com a reflexão proposta pelo tema “Espiritismo e as transformações religiosas”, trazendo este assunto para o interior do próprio movimento espírita contemporâneo (Que transformações religiosas realizamos dentro e fora do Espiritismo?).
O espírita participante do movimento atual sentirá, talvez, estranheza inicial diante de afirmativas da Profa. Maria Laura, mas ficará ainda mais surpreso ao “estranhar-se” com afirmativas e opiniões do próprio codificador do Espiritismo.
Uma visão de dentro do movimento espírita original (uma visão privilegiada, vinda de seu próprio iniciador) e uma visão atual externa, de uma pesquisadora, servem como pano de fundo para que façamos nossas próprias reflexões.
OBS.: A divisão dos textos em três grupos foi uma proposta de dinâmica de grupo para estudo em conjunto seguida de uma discussão em plenária – o que ocorreu durante a preparação do tema com os oradores da USE-RP no mês de março.
(GRUPO I) “Stoll (2003) e Lewgoy (2004) enfatizaram, cada um a seu modo, a dimensão ‘catolicista’ (que)... o Espiritismo teria assumido ao longo da segunda metade do século XX. O Espiritismo participaria assim de uma espécie de pendor sincrético, com nítida hegemonia de uma matriz cultural católica, que caracterizaria a formação de uma vertente importante da atualidade da cultura brasileira.” (Vida e morte no Espiritismo Kardecista – Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti).
(GRUPO II) ... “Ao alcançar a condição de espírito superior, correspondente ao ápice da escala evolutiva, uma entidade espiritual alcança a plena individualidade. Aí então, livre do carma e da roda das reencarnações... A eternidade propriamente dita, situada num futuro escatológico muito distante, permanece para além (do ciclo das reencarnações). De certo modo, poderíamos dizer que, no Espiritismo (à brasileira), essa vida eterna, situada no depois de um tempo finito, correspondente ao término de ampla trajetória evolutiva, tende à idéia do céu cristão.” (Vida e morte no Espiritismo Kardecista – Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti).
(TODOS OS GRUPOS) “Trata-se (o Espiritismo) de uma religião surgida nos tempos modernos, religião urbana, (de classes sociais) das camadas médias, na qual a leitura e a escrita ocupam lugar central na experiência social de seus adeptos. Uma religião que, em sua origem histórica, nem mesmo se desejaria regiliosa, percebendo a si mesma como eminentemente ‘racional’... enfatizando a possibilidade de exercício do ‘livre-arbítrio’ como um de seus valores centrais.” (Vida e morte no Espiritismo Kardecista – Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti).
(GRUPO III) “Le Goff demonstrou que a construção secular da crença no purgatório, cujo apogeu situa-se entre os séculos XII e XIII na Europa medieval... (deve-se) às crenças cristãs católicas na imortalidade e na ressurreição final, bem como na idéia de que a vida eterna se ganha por meio de uma só vida... Para preencher o fosso temporal existente entre os interesses do indivíduo, com seu limitado ciclo biológico de (uma única) vida e atrajetória da espécie humana como um todo,... um novo sistema de idéias, expressão de mutações profundas na sociedade de então, emergiram com o purgatório: a possibilidade de mitigar as penas pós-morte, o convite ao exame de consciência em vida, enfatizando a idéia de responsabilidade individual; e a emergência correlata ... das intercessões (pelos mortos, que) acionaria, simultaneamente, uma ativa solidariedade entre mortos e vivos...
(Segundo Le Goff)... religiões como o hinduísmo e o catarismo, que acreditam em reencarnações perpétuas e na metempsicose, excluiriam de antemão a crença no purgatório... A comparação entre a crença espírita contemporânea na reencarnação e a crença cristã no purgatório... indica que o Espiritismo promoveu aquilo que era impensável para Le Goff: a absorção e a transformação da crença católica no purgatório nas idéias de reencarnação e carma.” (Vida e morte no Espiritismo Kardecista – Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti).
(GRUPO I) “Ainda neófito na Ciência espírita, para divulgá-la, tínhamos apenas zelo e boa-vontade...Desde janeiro, ocupamo-nos da ciência prática e vimos ligar-se a nós um certo número de irmãos que dela se ocupavam isoladamente... Malgrado as dificuldades encontradas no caminho, fortes pela pureza e direitura de nossas convicções, sustentadas pelos conselhos de nosso amado e venerado chefe Sr. Allan Kardec, temos a grata satisfação, após nove meses de apostolado, ... de poder reunir-nos hoje, sob suas vistas, para a inauguração desta Sociedade...” (Revista Espírita, 1861, Reunião Geral dos Espíritas Bordeleses, Discurso do Sr. Sabò – Allan Kardec)
(GRUPO II) “Tenho a honra de erguer um brinde ao Sr. Allan Kardec, um brinde todo de gratidão e reconhecimento, em nome dos seus adeptos, de seus apóstolos aqui presentes.
Ah! Como somos felizes, nós os voluntários da grande obra, da obra fecunda e regeneradora, por vermos entre nós nosso chefe corajoso e bem amado!” (Revista Espírita, 1861, Banquete oferecido ao Sr. Allan Kardec pelos vários grupos de espíritas lioneses – Brinde do Sr. Prof. Bouillant - Allan Kardec)
(GRUPO III) “Ao senhor Allan Kardec.
Caro senhor,
Os espíritas que compunham o círculo da cidade de Andujar, hoje disseminados pela vontade de Deus para a propagação da verdadeira doutrina, vos saúdam fraternalmente.
Ínfimos pelo talento, grandes pela fé, propomo-nos sustentar, tanto pela imprensa, quanto pela palavra, tanto em público quanto em particular, a doutrina espírita, porque é a mesma que Jesus pregou, quando veio à Terra para a redenção da humanidade.” (Revista Espírita, 1869, Apóstolos do Espiritismo na Espanha, Manuel Gonzalez Soriano – Allan Kardec)
(GRUPO III) “... não é mais por centenas que ali se contam os espíritas, como no ano passado, mas por milhares... e calcula-se que, seguindo a mesma progressão, em um ou dois anos serão mais de trinta mil. O Espiritismo os recruta em todas as classes, mas é sobretudo na classe operária que se propaga com mais rapidez...Lá há homens, velhos, senhoras, moços, até crianças, cuja atitude, respeitosa e recolhida, contrasta com sua idade; jamais alguém perturbou, por um instante, o silêncio de nossas reuniões, por vezes muito longas;... o número das metamorfoses morais, nos operários, é quase tão grande quanto o dos adeptos: hábitos viciosos reformados, paixões acalmadas, ódios apaziguados, lares tornados pacíficos, numa palavra, desenvolvidas as virtudes mais cristãs e isto pela confiança, agora inquebrantável, que as comunicações espíritas lhes dá do futuro...” (Revista Espírita, 1861, O Espiritismo em Lyon – Allan Kardec).
(GRUPOS I e II) “Não foi em alguns anos, mas em alguns meses, que a doutrina ali tomou proporções imponentes e todas as classes sociais. Constatamos, logo de entrada, um fato capital: é que lá, como em Lyon e em muitas outras cidades que visitamos, vimos a doutrina encarada do mais sério ponto de vista e das suas aplicações morais; ali, como alhures, vimos inumeráveis transformações, verdadeiras metamorfoses; caracteres hoje irreconhecíveis; gente que em nada cria, trazida às idéias religiosas pela certeza do futuro, para ela, agora, palpável. ..
... em todas as (reuniões espíritas) que assistimos, vimos o mais edificante recolhimento, um ar de mútua benevolência entre os assistentes; sente-se um meio simpático, que inspira confiança.
Os operários de Bordéus nada ficam a dever aos de Lyon: ali se contam numerosos e fervorosos adeptos, cujo número aumenta todos os dias... Um fato que gostamos de constatar é que homens, por vezes em eminente posição social, se misturam aos grupos plebeus com a mais fraterna cordialidade, deixando os títulos à porta, assim como simples trabalhadores são acolhidos com igual benevolência entre os grupos de uma outra ordem. Por toda parte, o rico e o operário se apertam as mãos cordialmente...
Encontramos em Bordéus muitos numerosos e muito bons médiuns em todas as classes, de todos os sexos e idades... Mas o que é ainda melhor é a abnegação de todo o amor-próprio a respeito das comunicações... todos submetem com simplicidade o que obtêm ao julgamento da assembléia e ninguém se ofende nem se fere com a crítica; aquele que recebe falsas comunicações consola-se aproveitando as boas que outros obtêm e dos quais não têm ciúmes. (Revista Espírita, 1861, O Espiritismo em Bordéus – Allan Kardec).
(TODOS OS GRUPOS) “Não é sem a mais suave emoção que venho entreter-me convosco, caros espíritas do grupo lionês... Ah! Esses ágapes despertam em meu coração a lembrança daqueles em que todos nos reuníamos, há mil e oitocentos anos, quando combatíamos contra os costumes dissolutos do paganismo romano, e quando já comentávamos os ensinos e as parábolas do Filho do Homem...podeis considerar os que, em vossos grupos desempenham uma missão, um apostolado, como tendo sido mártires da propagação da idéia igualitária, ensinada do alto do Gólgota pelo nosso Cristo bem-amado! Hoje, ... aquele que foi sagrado por São Paulo vem dizer-vos... se o Cristianismo preconizou a igualdade e as leis igualitárias, o Espiritismo oculta em seus flancos a fraternidade e as suas leis, obra grandiosa e durável, que os séculos futuros bendirão...
... vossa missão é sempre a mesma, porque o paganismo romano, sempre de pé, sempre vivaz, ainda enlaça o mundo...; deveis, pois, espalhar entre os vossos irmãos infelizes, escravos de suas paixões e das paixões alheias, a sã e consoladora doutrina que meus amigos e eu viemos vos revelar, por nossos médiuns de todos os países;... hoje, se fôsseis vítimas de perseguição, esta não emanaria mais de um poder tirânico e invejoso, como ao tempo da Igreja Primitiva, mas de interesses coligados contra a idéia e contra vós, os apóstolos da idéia.” ( Revista Espírita, 1861, Epístola de Erasto aos Espíritas Lioneses – Allan Kardec)
(GRUPOS I e III) “Tem-se-vos dito uma coisa muito verdadeira, que desejamos relembrar-vos: que o Espiritismo é simplesmente uma moral e que não deverá sair, nem muito, nem pouco, dos limites da filosofia, se não quiser cair no domínio da curiosidade.
Deixai de lado as questões de ciência: a missão dos Espíritos não é resolvê-las, poupando-vos ao trabalho das pesquisas; mas, procurai tornar-vos melhores, porquanto é assim que realmente progredireis.” (Dissertações Espíritas, mensagem XVII, São Luís, em O Livro dos Médiuns – Allan Kardec)
(GRUPO II) ”...o Espiritismo é uma idéia e não há barreiras impenetráveis à idéia, nem bastante altas para que estas não possam ser transpostas... o Espiritismo... não é senão o desenvolvimento e a aplicação da idéia cristã.
...A força do EspIritismo tem duas causas preponderantes: a primeira, é que torna felizes os que o conhecem...a segunda, é que ele não repousa na cabeça de nenhum homem... não tem um foco único...; seu foco está em toda parte, porque em toda parte há médiuns que podem comunicar-se com os Espíritos... “(Revista Espírita, 1861, Algumas Considerações sobre o Espiritismo, lidas na sessão geral, quando da passagem do Sr. Allan Kardec por Bordéus, Discurso do Sr. Allan Kardec – Allan Kardec)
(TODOS OS GRUPOS) “Dissemos que o verdadeiro objetivo das assembléias religiosas deve ser a comunhão de pensamentos; é que, com efeito, a palavra religião quer dizer laço. Uma religião, em sua acepção nata e verdadeira, é um laço que religa os homens numa comunidade de sentimentos, de princípios e de crenças...
Se assim é, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores. No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos glorificamos por isto, porque é a doutrina que funda os elos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as mesmas leis da natureza.
Por que, então, declararmos que o Espiritismo não é uma religião? Porque não há uma palavra para exprimir duas idéias diferentes, e que, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; desperta exclusivamente uma idéia de forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse uma religião, o público não veria aí senão uma nova edição, uma variante, se se quiser, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; não o separaria das idéias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes se levantou a opinião pública.
Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se com um título cujo valor inevitavelmente se teria equivocado. Eis porque simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral.” (Revista Espírita, 1868, Sessão Anual Comemorativa dos Mortos, Discurso de Abertura pelo sr. Allan Kardec, O Espiritismo é uma Religião? – Allan Kardec)
O Espiritismo e as Transformações Filosóficas
A guisa de alerta:
É impossível falar de um tema tão amplo quanto “O Espiritismo e as transformações filosóficas que ocorreram nos 150 anos após o seu surgimento” sem filosofar (Filosofia: estudo que se caracteriza pela intenção de ampliar incessantemente a compreensão da realidade, no sentido de apreendê-la em sua totalidade (1)).
Refletir sobre um assunto tão extenso torna natural duas coisas: a) a abordagem do assunto exige coortes e escolhas pessoais para poder restringir o tema ao tempo e espaço exíguos como o que aqui possuímos; b) as conclusões, tendo em vista o viés criado pelas decisões prévias que restringem o campo estudado e o próprio despreparo acadêmico do autor deste texto, serão apenas temporárias e abertas, propondo-se ser ponto de partida ou um estímulo a estudos e atitudes mais profundas no futuro próximo – o que, a princípio, também são características de qualquer doutrina filosófica.
Procurarei abordar apenas, e superficialmente, os dois pólos que delimitam o título: aspectos do pensamento filosófico no tempo de Kardec e aspectos do pensamento filosófico nos tempos atuais. Darei destaque, nestes dois extremos do período de observação, às manifestações cultas da Filosofia (de seus filósofos de destaque) e às manifestações práticas da filosofia de cada época (as expressões culturais que esboçam os conceitos filosóficos de um povo).
Compararei estas manifestações com o pensamento espírita a partir de duas figuras centrais no Espiritismo nascente: o codificador Allan Kardec e o espírito Erasto. As comparações com os pensamentos espíritas atuais deixarei para que cada um faça as suas investigações e indagações pessoais.
Visão panorâmica da época de Kardec (1810-1869) até nossos dias:
“O século XIX é herdeiro do otimismo iluminista e da Revolução Francesa do século XVIII” (2). O século XIX “nasceu impregnado da confiança absoluta na renovação e transformação do mundo que caracterizou a filosofia das luzes. Desenhava-se um mundo mais cortês, mais confiante e benevolente” (2). Acreditava-se na possibilidade dos avanços científico-tecnológicos construírem uma sociedade mais feliz e próspera. Parece ser nesta época que se forma a mentalidade de aversão ao velho e desejo pelo novo como sinônimo de espírito progressista.
O “espírito do século XIX” poderia ser delineado a partir das seguintes linhas gerais: 1) as idéias evolucionistas; 2) a crença no progresso; 3) a época do cientificismo; 4) as teses utilitaristas; 5) a renovação religiosa; 6) as transformações políticas, econômicas e sociais; 7) a filosofia democrática; 8) a filosofia liberal; 9) a filosofia positivista; 10) os movimentos sociais: socialistas, anarquistas e comunistas; 11) os arraigados nacionalismos (2).
É justamente durante o século de Kardec que a França se torna o centro hegemônico mundial na geração e difusão da cultura.
É na segunda metade do século XIX que começa a se formar a face do mundo que conhecemos hoje, justamente na Paris do Imperador Napoleão III (contemporâneo de Kardec), e que os estudiosos definem como “sociedade de espetáculo” – onde o entretenimento passa a assumir proporções nunca imaginadas, com as cidades transformadas através de conceitos de urbanismo e iluminação pública, a popularização dos teatros, bares e cabarés, o barateamento e crescimento das publicações de livros, jornais e revistas (do que, aliás, Kardec se utilizará, publicando as “obras da Codificação”, relatos de viagem – “Viagem Espírita de 1862” – e a Revista Espírita), a criação de museus de Artes, História e Ciências, a invenção e utilização do trem como transporte coletivo rápido.
“Na Segunda metade do século XIX, organizou-se um movimento espiritual, folosófico e científico centrado na relação com a morte, no contato sistemático e regular com os mortos, nas manifestações conscientes dos espíritos e nos ensinamentos por eles transmitidos” (3). Um influxo novo, de acordo com os princípios da ciência positiva, da filosofia secularizada (desprendida da teologia), do materialismo político e racional, invadiu este domínio, antes exclusivo da religião (3). Médiuns passarão a dar espetáculos muito concorridos em espaços públicos, como os teatros, e a serem investigados abertamente por pesquisadores renomados das sociedades científicas européias, como os físicos ingleses Oliver Lodge e William Crookes, o astrônomo alemão Friedrich Zöllner, o médico russo Aleksander Aksakof , o fisiologista francês Charles Richet, o naturalista inglês Alfred Russel Wallace e o bacteriologista francês Paul Gibier.
Este movimento espiritualista, do qual o Espiritismo, as obras de Kardec e seus continuadores fazem parte, colocou-se tanto como uma revolução do pensamento de sua época, num século que aboliu os preconceitos e as perseguições religiosas (3), que vários filósofos enfrentaram a questão e publicaram suas opiniões, alguns a atacando como posições fraudulentas e ingênuas (como no caso do filósofo idealista alemão Hartmann), outros, encarando as manifestações espíritas como fenômenos de grande interesse, mas que deveriam ser ainda melhor estudados antes que conclusões definitivas fossem assumidas (como o filósofo Henri Bergson). Há, ainda, as dissertações ambíguas, como esta de Engels em A Dialética da Natureza:
“Não é a necessidade ‘a priori’ que demonstra a existência dos espíritos, mas a observação experimental dos senhores Wallace, Crookes e companhia. Se acreditamos nas observações e análises espectrais de Crookes que conduziram à descoberta do tálio, ou nas ricas descobertas zoológicas de Wallace no arquipélago malásio, exige-se de nós que acreditemos também nas experiências e descobertas espíritas dos dois sábios?” (2)
A construção da “sociedade de espetáculo” se aprofundará nos poucos anos após o desencarne de Kardec: o americano Thomas Alva Edison inventará o fonógrafo, o primeiro aparelho capaz de gravar e reproduzir sons, em 1877 e a lâmpada incandescente em 1878; o engenheiro alemão Karl Benz construirá o protótipo do automóvel com motor a explosão, avô dos carros atuais, em 1885 e a fotografia, inventada durante a época de Kardec, sofrerá um intenso aumento no número de seus praticantes após a empresa americana Eastman iniciar a fabricação das câmeras fotográficas Kodak em 1888, as quais usavam filme em rolo e são as precursoras das câmeras fotográficas portáteis que tão bem conhecemos nos dias atuais.
A criação de uma sociedade de espetáculo, ao mesmo tempo que amplia os recursos para o lazer e para o prazer, desumanizam as relações (as cidades crescem e se tornam metrópoles, perdendo-se os espaços públicos íntimos, calmos, seguros e familiares, os instrumentos de comunicação tornam desnecessária a presença física das pessoas) e já na virada do século XIX para o século XX as grandes cidades européias são tomadas por um pessimismo e maus pressentimentos de um fim do mundo ou de uma perda da inocência – é a “Bèle Epoque” com seu espírito decadente, onde a figura romântica do gênio não compreendido e que morre cedo, vitimado por vícios de toda ordem, torna-se um emblema de uma humanidade que, após um sonho de futuro promissor e duradouro, percebe-se sem saída e vítima de seus próprios excessos. É a época do Simbolismo, onde conceitos tradicionais de religiosidade são resgatados através de experiências e textos místicos ou esotéricos, como meios para se alcançar a espiritualização, percebendo-se o corpo como prisão e organismo doente e a mulher, a geradora de filhos, como a fonte da perdição, a “femme fatale”. É neste período que movimentos emergentes junto com o Novo Espiritualismo e contemporâneos de Kardec, mas possuidores de uma “veia” mais mística que o Espiritismo, terão sua maior propagação na alta sociedade européia, particularmente a Teosofia e a Rosa Cruz, chegando-se a ser organizado um Salão Rosa Cruz de Belas Artes em Paris que fará sombra, durante algum tempo, ao Salão Oficial de Belas Artes da França. É como conseqüência deste período, já nas primeiras décadas do século XX, que Léon Denis fará história nos Congressos Internacionais de Espiritualismo, defendendo o Espiritismo e distinguindo o espírito kardequiano do contexto que o envolvia.
Durante o século XX, aqueles maus presságios da “Bèle Epóque” se concretizam com a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais – a devassidão das cidades européias destruídas e as notícias aterradoras sobre os campos de concentração e demais crimes de guerra parecem ter desmoronado de vez no terreno europeu o que restava do otimismo iluminista e da confiança na natureza boa do homem (a qual nos remete até Rousseau). O movimento espiritualista, incluindo o Espiritismo, quais também bebiam de um espírito de esperança no futuro e confiança na ciência, sofrem retrocesso na Europa. Espíritas são perseguidos e até mortos durante os governos autoritários da Espanha e da Thecoslováquia, a Mansão Espírita em Paris é invadida e documentos são destruídos pelas tropas nazistas e será difícil encontrar filósofos e cientistas renomados após a Segunda Grande Guerra que falem tão abertamente quanto no período anterior sobre fenômenos mediúnicos e espíritos.
Diante de uma Europa cabisbaixa e um Japão derrotado, o entusiasmo norte-americano perante seu milagre econômico e sua vitória bélica invade o planeta, fazendo de seu pragmatismo político-econômico-tecnológico-materialista uma hegemonia cultural. Os Estados Unidos, que se preparava há mais que um século para superar a França, criando universidades com infra-estrutura capaz de rivalizar com as melhores universidades européias, aproveita as ondas de imigração de intelectuais, cientistas e artistas europeus durante as Grandes Guerras para se tornar a superpotência que todos conhecem hoje.
Os Estados Unidos, como uma nação ainda relativamente nova, que não sofreu, significativamente, os terrores da guerra em seu próprio território e que experimentava um crescimento social e econômico sem precedentes, foi capaz de revitalizar as expectativas humanas depositadas na ciência e no progresso. Este contexto, aliado à Guerra Fria que se seguiu à Segunda Guerra Mundial (conseqüência da divisão do mundo entre os sistemas capitalista e socialista, um desfecho previsível de disputas filosóficas no campo da economia que remontam à geração de Kardec), resultaram em uma corrida tecnológica-materialista que pareceu sufocar as aspirações espiritualistas de gerações anteriores. As invenções da televisão, do microcomputador, da “internet”, além do aperfeiçoamento do avião, do automóvel e do telefone até às viagens espaciais, aliados a uma sofisticação da propaganda (seja capitalista ou socialista, política ou econômica) com propósitos de aliciar e manipular mentes, criaram a “cultura pop” do tempo presente e levaram a “sociedade de espetáculo” a níveis inimagináveis de desumanização (como demonstra tão bem o sucesso dos “reality shows”).
Mas no subterrâneo deste materialismo e ateísmo “oficiais”, pensamentos espiritualistas se movimentavam inquietos, emergindo como reivindicações sociais, Declaração de Direitos Humanos pela ONU, formação de ONGs e redes de serviço voluntariado, fundação do Greenpeace e preocupações ecológicas crescentes que exigem uma solidariedade mundial para que ainda “consigamos salvar o planeta”, aliança entre filosofias e religiões orientais e teorias científicas no discurso de físicos de vanguarda, redescoberta da reencarnação (agora, com fins terapêuticos) por psiquiatras e psicólogos. Este movimento espiritualista contemporâneo, se assim posso me expressar, parece ter culminado no fenômeno globalizado do sucesso dos filmes hollywoodianos com temática espiritualista, reencarnacionista ou mediúnica e da literatura de auto-ajuda, a qual se tornou uma colcha de retalhos, formado por conceitos muitas vezes desvinculados de seu contexto e sentidos originais.
Aspectos Filosóficos de ontem e de hoje:
O materialismo e o ateísmo, até a modernidade, haviam sido individuais. A partir das teorias do século XIX, ganharam força cultural e se apossaram de quase todos os ramos do conhecimento e seus pressupostos passaram a ser quase dogmas (2). Kardec responde a este fenômeno, sentenciando um número incontável de vezes que o Espiritismo “proclama e prova verdades comuns a todos, base de todas as religiões, sem se preocupar com particularidades – não vem destruir senão uma coisa: o materialismo, que é a negação de toda religião!” (4).
Augusto Comte, um dos filósofos mais influentes do século XIX, desencarnou no mesmo ano que Kardec publica a primeira edição d’O Livro dos Espíritos (1857). Materialista, Comte coloca a razão como musa a ser glorificada, criando uma religião sem Deus, fundando a Sociedade Positivista, que tem sua representante brasileira na Igreja Positivista do Brasil. Grande parte das idéias de Comte parecem nortear as ações populares e institucionais ainda hoje, mesmo as ditas sociais e filantrópicas ao deixarem o aspecto espiritual do homem em segundo plano. São princípios básicos da Doutrina Positivista:
a) Anti-racismo: “as três raças deverão concorrer, cada qual a seu modo, para o progresso das sociedades e a harmonia fraterna da civilização. Se a raça branca é mais intelectualizada, a raça negra a supera em sentimento, e é este que deverá , com o tempo, prevalecer, na medida em que a afetividade é a sede do amor e o amor representa o princípio de todas as ações.” (5)
b) Nova moral positivista: moral imbuída do “espírito de conjunto”, para quem o indivíduo não existe, quando está em jogo o bem estar social.
c) Uso altruísta da propriedade: foi Comte quem cunha a palavra altruísmo, como uso ético da propriedade, apoiando os impostos diretos governamentais sobre as rendas dos proprietários como modo de distribuir a riqueza. Ele possuía reservas ideológicas quanto à transmissão do patrimônio para os descendentes através da herança e defendia o caráter não-venal do trabalho, ou seja, “o trabalho não deveria ser considerado uma mercadoria como qualquer outra, porque nenhum salário paga o esforço humano”. Comte defendia uma remuneração do operário composta de duas partes: a primeira, fixa e maior, seria calculada exclusivamente em função das necessidades do trabalhador e de sua família, a segunda parte, variável, contemplaria a produtividade.
d) A Ditadura Republicana: um Poder Executivo forte, regido pelos princípios de ordem progresso e “espírito de conjunto”, eleito por voto direto e aberto, segundo o princípio de Comte de “viver às claras”, e um Parlamento que seria reduzido à votação do orçamento. O caráter ditatorial do governo, entretanto, não se estenderia à “esfera espiritual”, ou seja, as áreas culturais, educacionais e religiosas.
e) Pacifismo: Comte foi drástico ao propor a conversão dos exércitos nacionais em polícias civis (5).
Marx e Engels, utilizando uma abordagem dialética (tese, antítese e síntese) - o que já estava presente em Hengel, mas que Comte não fez uso - descrevem uma história segundo um ponto de vista materialista-dialético, onde o clímax da evolução social seria o comunismo, propondo um caminho para aí chegar através da ditadura do proletariado.
Kardec, em artigo que não foi publicado em vida, mas incluído em suas Obras Póstumas, descreve uma abordagem dialética-espiritualista, onde o clímax da evolução social, após as etapas prévias da aristocracia da força, do dinheiro e da inteligência, será a aristocracia intelecto-moral – “será essa a última aristocracia, a que se apresentará como conseqüência, ou , antes, como sinal do advento do reinado do bem na Terra. Ela se erguerá muito naturalmente pela força mesma das coisas... a criar uma preponderância legítima a que a massa se submeterá, porque lhe inspirará plena confiança, pelas suas luzes e pela sua justiça” (6). Kardec imagina o caminho para esta sociedade conduzido pelo exemplo dos bons e pela educação das massas através da “vulgarização universal do Espiritismo, o que resultará em uma elevação sensível do nível moral da atualidade” (6). Kardec não descreve um processo violento, de armas ou revolucionário, mas pacífico, provavelmente através do voto – tendo já proclamado, na Revista Espírita, a igualdade de direito ao voto tanto para homens e mulheres, tanto para brancos ou negros (7).
Na época de Kardec, as mudanças econômicas e sociais levaram a um profundo empobrecimento do camponês e do assalariado. Múltiplas correntes socialistas revolucionárias surgem neste período, centrando suas críticas ao liberalismo capitalista, mas tendo diferentes concepções do mundo, algumas materialistas e outras espiritualistas e nesse rol aquelas que queriam regenerar o cristianismo. Escolas socialistas que iam de Saint-Simon a Fourier, de Mazzini a Bakunin e de Proudhon a Marx (2). Como resposta clara a este campo amplo e intenso de discussão, o espírito Erasto se posiciona veementemente, em nome da Falange do Espírito da Verdade: “repelimos energicamente tudo quanto pareça ligar-se às prescrições de um comunismo anti-social; antes de tudo, somos essencialmente propagandistas da liberdade individual, indispensável ao desenvolvimento dos encarnados; conseqüentemente, inimigos declarados de tudo quanto se aproxime dessas legislações conventuais, que aniquilam brutalmente os indivíduos... a igualdade proclamada pelo Cristo, e que nós mesmos professamos nos vossos grupos amados, é a igualdade ante a justiça de Deus, isto é, nosso direito, conforme nosso dever cumprido, de subir na hierarquia dos Espíritos e um dia atingir os mundo adiantados, onde reina a perfeita felicidade.” (8)
N’O Livro dos Espíritos, o direito de propriedade é vista como uma lei natural ligada à lei de justiça, amor e caridade. “O direito de viver confere ao homem o direito de ajuntar o que necessita para viver e repousar, quando não mais puder trabalhar, mas deve fazê-lo em comum, como a abelha, através de um trabalho honesto, e não ajuntar como um egoísta”. O desejo de possuir é visto como natural, mas desde que “o homem não deseje apenas para si e para sua satisfação pessoal”. Aliás, propriedade legítima será somente aquela “que foi adquirida sem prejuízo para os outros” (9).
A igualdade também é vista pelos Espíritos da Codificação Kardequiana como uma lei natural, mas envolvidas por matizes dialéticas ditadas pela ascendência da individualidade e do estágio evolutivo diferenciado de cada espírito, possuir de número e experiências reencarnatórias diversas. Possuímos uma igualdade natural, pois somos filhos de um e único Pai, mas apresentamos aptidões diferentes, que resultam em uma desigualdade de riquezas devido a situações reencarnatórias e níveis evolutivos temporariamente diferentes. Mas a desigualdade de riquezas não significa desigualdades sociais e de bem-estar. Dentro de um princípio de amor, justiça e caridade, a igualdade social é uma meta viável e de acordo com a natureza e o bem-estar, apesar de relativo, cada um poderia gozá-lo desde que as individualidades fossem respeitadas, “porque o verdadeiro bem-estar consiste no emprego do tempo de acordo com a vontade e não em trabalhos pelos quais não se tem nenhum gosto. Como cada um tem aptidões diferentes, nenhum trabalho útil ficaria por fazer. O equilíbrio existe em tudo e é o homem quem o perturba.” (10)
A partir da década de 1960, novas concepções filosóficas arejam os centros mundiais do pensamento. Após o predomínio do Existencialismo que motivou a política e as artes durante as fases do espírito decadente do início do século XX e as crises de valores resultantes das catástrofes da Primeira e Segunda Grande Guerra, quando o pessimismo de Sartre preponderou sobre outras formas mais otimistas de pensamento existencialista, surge o Estruturalismo, que se disseminou a partir da França, baseado nas teorias de Saussure, do formalismo russo e do Círculo Lingüístico de Praga.
Os estruturalistas franceses promoveram a lingüística à posição de ciência-piloto das ciência humanas e se propuseram a fundar a semiologia, que seria a ciência geral dos signos. Os estudos concentraram-se na busca de modelos universais que teriam como base a linguagem verbal e desenvolveram-se sobretudo na análise estrutural da narrativa. É como se, após o beco sem saída proposto por Sartre e pela Segunda Guerra Mundial, a Filosofia se voltasse para si mesma em busca de novas alternativas, através da análise do próprio discurso, seja este expresso pela linguagem filosófica ou artística (principalmente na Literatura e nas Artes Plásticas). Os grandes nomes do Estruturalismo foram o lingüista Roman Jákobson, o antropólogo Claude Lévi-Strauss, o psicanalista Jacques Lacan, o filósofo Louis Althusser, os literários Algisdar Greimas, Gérard Genette e Roland Barthes (5).
O Estruturalismo ortodoxo, que foi muito mais um método de investigação aplicável às ciências humanas do que uma proposta filosófica (5), teve vida curta. Em pouco tempo, filósofos franceses, através de suas cátedras e participações em universidades norte-americanas, passam a constetar o idealismo, o racionalismo e a pretensão à universalidade do movimento estruturalista e passarão a ser identificados pelos críticos americanos como pós-estruturalistas, desconstrutivistas ou pós-modernos.
Michel Foucault contestou a Razão como forma de poder e propôs que se substituísse a ontologia (estudo a partir do homem) pela “arqueologia” do saber (o processo pelo qual o saber se forma). Gilles Deleuze efetuou uma releitura de Nietzche (filósofo existencialista), celebrando o “jogo da diferença” contra o trabalho da dialética e faz críticas ao platonismo (o pensamento dialético possui implícita a noção de progresso, o que passa a ser questionado pelos pós-modernistas). Outros importantes nomes são Todorov, Lyotard e, talvez o mais influente deles, Jacques Derrida.
As principais características do pós-estruturalismo foram:
- a pulverização dos objetos de estudo e dos pontos de vista (parece que não é mais possível ao homem contemporâneo criar teorias universais que abrangem a totalidade do mundo conhecido;
- a rejeição da razão como universal ou fundamental.
- o interesse pelas diferenças, pelos excluídos e pelas populações e pelos pensamentos que vivem à margem das antigas linhas hegemônicas da cultura ocidental.
- o interesse pela história e pela cultura como os agentes que constróem os discursos humanos.
- a dissolução das fronteiras entre as disciplinas e a celebração da multidisciplinaridade e interdisciplinaridade. (5)
“Nos anos 1980 e 1990, instalou-se a ideologia do ‘politicamente correto’, acirrando-se as reivindicações das ‘minorias’, desfazendo-se, também, as fronteiras entre alta cultura e cultura de massa. Nas universidades americanas, implantaram-se os ‘estudos culturais’ em suas várias vertentes: feminismo, estudos de gênero e de etnias, estudos pós-colonialismo, neo-marxistas. Na plataforma de cada uma dessas vertentes encontram-se teóricos franceses: Foucault, por sua crítica ao poder, à ordem dos discursos e à defesa dos vários ‘outros’ (é o surgimento da corrente da ‘Alteridade’ – ‘os outros’ dos opositores, da loucura, da sexualidade, etc.); Deleuze, pela ênfase na diferença e suas propostas anarquistas (a história a sociedade são feitas de diferenças espaciais ou temporais, não há progresso, não há um processo contínuo evolutivo); Barthes, pela sua crítica das mitologias (os ícones da televisão, da propaganda) veiculadas na cultura de massa, nas imagens de publicidade; Lyoart, pelo anúncio do ‘fim dos grandes relatos’ (princípio básico do pós-modernismo que defende ‘o fim da história’ na atualidade, onde a Humanidade tem acesso imediato a tudo que &ea



