Sábado 16 Dezembro 2017

A lição das crianças

Marlene Fagundes Carvalho Gonçalves

E lhe trouxeram crianças para que as tocasse; os discípulos, porém, as repreendiam. Vendo isto, Jesus zangou-se e disse-lhes: "Deixai virem a mim as crianças, não o proibais, porque destas é o reino de Deus. Em verdade vos digo, quem não receber o reino de Deus como uma criança, de modo algum entrará nele". E abraçando-as, as abençoava, pondo as mãos sobre elas. (Marcos 10: 13-16)

Esta passagem de Jesus nos faz refletir sobre as lições que podemos apreender da infância. Mesmo reconhecendo na criança um Espírito já vivido, com experiências e uma história de vida, a infância propicia uma oportunidade valiosa para o Espírito. Kardec nos esclarece: "Pode-se assim dizer que, nos primeiros anos, o Espírito é realmente criança, pois as idéias que formam o fundo do seu caráter estão ainda adormecidas. Durante o tempo em que os instintos permanecem latentes ela é mais dócil, e por isso mesmo mais acessível às impressões que podem modificar a sua natureza e fazê-la progredir, o que facilita a tarefa dos pais. O Espírito reveste, pois, por algum tempo, a roupagem da inocência. E Jesus está com a verdade, quando, apesar da anterioridade da alma, toma a criança como símbolo da pureza e da simplicidade." 1. E é daí que podemos tirar a nossa lição.

Carlos Torres Pastorino, em sua obra Sabedoria do Evangelho 2, destrinchando o ensino de Jesus, nos mostra o quanto temos a aprender com as crianças. Ele nos diz:

"De uma forma ou de outra, é indispensável possuir certas qualidades, para que se alcance o reino dos céus. Sem pretender enumerar todas, poderemos citar, como próprio das crianças em tenra idade, as seguintes qualidades:

1 - a HUMILDADE, que está sempre disposta a reconhecer sua incapacidade e a esforçar-se por aprender, sem pretender ser nem saber mais que o instrutor; e essa qualidade é básica na infância, que aceita o que se lhe ensina com humildade e fé;

2 - o AMOR, que se prontifica sempre a perdoar e esquecer as ofensas. A criança pode brigar a sopapos e pontapés, e sair apanhando, mas na primeira ocasião vai novamente brincar com quem a maltratou, esquecendo-se totalmente do que houve;

3 - a ÂNSIA DE SABER, coisa que as crianças possuem até chegar; por vezes, ao ponto de exasperar os mais velhos com suas perguntas constantes, embaraçosas e indiscretas, jamais dando-se por integralmente satisfeitas;

4 - a PERSEVERANÇA que, quando quer uma coisa, não desiste, mas usa de todas as artimanhas até conseguí-la, com incrível persistência e teimosia, obtendo o que quer, às vezes, pelo cansaço que causa aos adultos;

5 - a INOCÊNCIA, sem qualquer malícia, diante de quaisquer cenas e situações; para as crianças tudo é "natural" e limpo, mormente se são educadas sem mistérios nem segredos, pois a maldade ainda não viciou suas almas;

6 - a SIMPLICIDADE, tudo fazendo sem calcular "o que dirão os outros", sem ter preconceitos nem procurar esconder qualquer gesto ou ato, mesmo aqueles que os adultos hipocritamente classificam como "vergonhosos";

7 - a DOCILIDADE de deixar-se guiar, confiantemente, pelos mais idosos, sem indagar sequer "aonde vão". Não podem imaginar traições nem, enganos, porque eles mesmos são incapazes de fazê-lo, e julgam os outros por si.

Se tivermos essa conduta, simples e natural, como a criança (isto é, sem forçar), estaremos com as qualidades necessárias para poder "receber" estado de consciência superior que traz à alma a paz que Cristo dá e a felicidade plena do Espírito."

Se deixássemos nosso coração falar mais alto! Quantas vezes nos emocionamos ao olhar para uma criança aprendendo suas primeiras letras… Quantas vezes sorrimos ao escutar perguntas tão absurdas, do ponto de vista adulto, mas tão comuns vindas das crianças. Quantas vezes sentimos nossa imensa responsabilidade ao segurarmos a mão de uma criança que prontamente nos segue, confiando plenamente em nós…

Com a nossa vaidade e orgulho de adultos, sempre pensamos estar do nosso lado a sabedoria e a possibilidade de ensinar, nunca pensamos em trocar de posição, buscando aprender e crescer a partir dessa relação com a criança. Que possamos pensar e refletir, e que cada item levantado por Pastorino seja uma possibilidade de treino e um exercício em direção ao nosso crescimento.